De Permanent Waves a Ghost Rider – como eu cresci ouvindo Rush

Por Candice Soldatelli
Tradutora


Anos 80. A abertura de um telejornal aqui do Sul tinha como trilha sonora nada mais nada menos que a intro de The Spirit of Radio. Eu, com 10 anos - um pouco menos talvez - adorava aquele som. É claro que não fazia a menor ideia de que se tratava de uma das canções mais populares da banda canadense Rush, muito menos sabia que existia uma banda chamada Rush. Eu só sabia quem era Michael Jackson (Thriller marcou uma geração inteira, ainda bem). 
Certo dia, um amigo dos meus tios deixou duas caixas enormes com mais de 100 vinis na casa da minha vó Irma (ele era DJ numa época em que se tocava rock nas festas… bons tempos). Ozzy Osbourne. AC/DC. Iron Maiden. Pink Floyd. Led Zeppelin. Rolling Stones. Kiss (incluindo aquele álbum da famigerada capa com a foto da banda sem maquiagem, um sacrilégio!). Queen. B52’s. Ramones. Van Halen. Rush. Pensem num tesouro! Era mais ou menos isso o que aquelas caixas representavam para mim. 
O melhor de tudo é que, como eu era a sobrinha mais velha e sempre fui uma menina que cuidava muito bem das coisas (minha boneca Tippy que ganhei no Natal de 1982 está em perfeitas condições até hoje), meus tios permitiam que eu escutasse o disco que eu quisesse no “3 em 1” (ouvi todos, menos The Dark Side of The Moon do Pink Floyd, porque eu morria de medo daquela capa e de algo que escutei nas conversas dos mais velhos sobre “tocar o disco ao contrário”). Meu favorito, obviamente, era Permanent Waves
O tempo passou, e eu só fui reencontrar o Rush já adolescente, no começo dos anos 90. Enquanto as meninas em geral “piravam” num Kid Abelha (nada contra, mas…), eu tentava encontrar alguém que tivesse o Presto para me gravar uma fita. Sorte minha que eu estudava com o pessoal mais legal que poderia existir: um bando de nerds (numa época em que não era cool ser nerd), todos muito inteligentes e curiosos, felizes proprietários de computadores XT (aqueles de tela verde), alguns deles baixistas e guitarristas de bandas de garagem, frequentadores de fliperamas. Todos gostavam de Rush. Meu colégio era muito parecido com o que Neil Peart descreve em Subdivisions. Havia os grupinhos dos “atletas” e dos “populares”, dos “mauricinhos” e das “patricinhas” – a maioria, na época, era metida a surfista ou a namorada de surfista, mesmo que morássemos a 100 quilômetros da praia mais próxima. Só ouviam Australian Crawl (nada contra, mas…). O legal é que nós da turma 204 não nos importávamos se éramos ou não “excluídos”, porque construímos nosso próprio mundo dentro da nossa sala de aula. E foi a melhor época da minha vida. 
Um amigo de um amigo da minha melhor amiga de colégio – a Gabriela Costa – tinha o “álbum do Rush com o coelho na capa”. Engraçado como naquela época costumávamos chamar os discos por nomes assim: “aquele do Guns com a capa que parece um jornal”, “aquele do Led Zeppelin com o velho do saco”, entre outros. Gravei uma fita cassete Basf que quase gastou dentro do meu Walkman Sony. The Pass certamente foi – e ainda é – uma das mais belas canções e uma das letras mais intrigantes que já ouvi. O pouco inglês que eu sabia não me deixava esquecer os versos mais fortes que tinha ouvido até então: “Turn around and turn around and turn around/ Turn around and walk the razor’s edge/ Don’t turn you back and slam the door on me.” 
Na época, eu tinha 15 anos. Se alguém me dissesse que em 2013 eu estaria lendo um livro de Neil Peart nas minhas férias de verão e recomendaria a obra a uma editora, e que depois eu seria a tradutora de Ghost Rider:– A Estrada da Cura, nem eu mesma acreditaria. Se me dissessem que eu receberia um e-mail do mestre em pessoa, eu iria dizer: “Imagina! Impossível”. Seria bom demais para ser verdade… Mas é. Melhor ainda é poder apresentar o Rush às novas gerações, como à minha filha de seis anos que adora The Color of Right. 

PS: Quero muito agradecer ao presidente do Rush Fã-Clube Brasil, Vagner Cruz, pelo apoio ao nosso trabalho. Também gostaria de agradecer a todos que colaboraram diretamente com a tradução na fase de pesquisa (biólogos, geólogos, motociclistas, bateristas, engenheiros, policiais): Davi Frezza, Joni Pedrotti, Jorge Soldatelli, Vagner Renosto, Maicon Daros, Diogo Chinelatto, Samuel C. Gomes, Vito Montanaro Neto, Cristiano Rieck, Rafael Sauthier. Meu agradecimento especial ao grupo Tradutores/Intérpretes do Facebook, com os colegas sempre dispostos a ajudar naquele termo impossível de acertar. Gratidão eterna ao preparador de originais Bruno Mattos (e a Carol Bensimon e Daniel Galera, que me indicaram o guri) e ao editor Gustavo Guertler, por ter acreditado quando eu disse que o livro era ótimo.

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