De que livro estamos falando?

Um livro escrito à mão é um livro. Um livro impresso é um livro. Um livro digital é um livro. Não depende de capa, de hardware, de sofisticação gráfica, nem tecnológica. Gertrude Stein diria que um livro é o que é: ideia manifestada por escrito ou imagens.

É fácil perceber que o impacto das novas plataformas tem provocado certa obliteração do valor do conteúdo. Há tanto fascínio com a tecnologia que nos esquecemos de atentar para o seu verdadeiro papel, de facilitadora. E se precisássemos ir a uma agência dos correios para enviar cartas toda vez que quiséssemos nos comunicar por escrito? O e-mail facilitou esse processo e vivemos um boom de contatos por escrito jamais imaginado antes da internet. O e-mail é acima de tudo “mail” e a mesma lógica se aplica ao e-boook.

São abundantes as manifestações pessimistas que enxergam apenas sinais de declínio do livro. Só vejo ascensão em tudo isso. Nunca se leu e se escreveu tanto como atualmente. Nunca a linguagem escrita foi tão relevante, usada até nos celulares. Estamos reforçando o hábito da leitura e a consequência é a redescoberta do prazer de ler.

Se hoje dispomos de hiperlinks, animações e trilhas sonoras para enriquecer as narrativas, ótimo! Se hoje qualquer pessoa pode editar seu livro no Kindle e tentar vendê-lo na Amazon, OK! O público seleciona. Sem qualidade, nada vai adiante. Esses recursos estão a serviço do livro, não são concorrentes, tampouco substitutos. E, se usados como disfarce para a fragilidade do conteúdo, acabam por denunciá-la.

No território dos filmes, estamos habituados ao fracasso daqueles que trocam bons roteiros por efeitos especiais. Por que a mesma premissa não seria válida para os livros? Aliás, que testemunho pode ser mais eloquente a favor dos livros do que os filmes que se baseiam em obras literárias e que, não obstante a evidente superioridade dos elementos audiovisuais à disposição das salas de projeção dolby, surround, ultra-blaster, via de regra não conseguem se equiparar ao envolvimento e a emoção provocados pela leitura? Quantas vezes ouvimos a frase “gostei mais do livro”?

Há algum tempo, testemunhamos um debate sobre a qualidade da literatura produzida atualmente no Brasil. Críticos severos se engalfinharam com defensores apaixonados, ambos expondo seus argumentos como quem trata de algo tão vital quanto a preservação da Amazônia, como quem analisa nossa capacidade de continuar oxigenando corações e mentes. Esse é o quadro e, na minha opinião, o único debate que vale a pena.

Fonte: Jornal o Globo, 29 de julho de 2011 (Primeiro Caderno)


0 comentários: