Copistas: heróis silenciosos da história dos livros

Meu interesse juvenil, pela historia e a literatura antiga, trouxe uma pergunta marcante: “Como toda esta informação chegou até nós, se Gutenberg inventou a imprensa em 1439?”

Milhares de anos atrás, antes de o livro ter o formato que conhecemos hoje, ele era manuscrito. Era copiado manualmente nos mais diversos materiais: couro, pele, pergaminho, papiros até chegarmos ao papel. O copista era um encarregado que copiava o texto à mão nestas superfícies. Uma profissão muito digna e necessária em tempos em que não havia tecnologia.

Rolos
Tudo começou com a necessidade de registrar os atos, as memórias e a contabilidade dos reis, príncipes e senhores. Em formato de rolos, os manuscritos durante milênios mantiveram a memória cultural da humanidade; beberam em suas fontes os poucos ideólogos, filósofos, juristas, poetas, historiadores e profetas que a época permitia, pois a leitura era uma habilidade muito rara. Poucos sabiam ler, ou tinham oportunidade e condições de se dedicar a isso.

As bibliotecas não tinham o aspecto de hoje. Mais pareciam depósitos de papel, nos quais raramente alguém mexia. Eram locais restritos, já que naquela época já havia o conceito de preservar o patrimônio cultural e deixar testemunhos à posteridade. O alto custo do material tornava os manuscritos muito raros e exigia ambientes com temperaturas baixas e certa segurança. Muitas vezes eram guardados em cavernas frias, em ânforas que ajudavam na preservação. Reis, sábios e religiosos cuidaram com muito ciúme deste verdadeiro tesouro; algumas das poucas e maravilhosas obras que chegaram até nós existiam somente num único exemplar, o que gerava a cobiça dos poderosos ou a fúria dos saqueadores. Quem chegava se sentia no direito de destruir tudo para apagar rastros da civilização que antes ali existia.

Livros eram tesouros
Com o tempo, e num mundo submerso em guerras permanentes, os livros deviam ser armazenados em lugares vigiados, tais como palácios, quartéis, conventos e bibliotecas. A mais famosa foi a de Alexandria, que durante mais de 500 anos chegou a ter um acervo de quase um milhão de rolos de papiro, com as mais importantes obras sobre medicina, idiomas, literatura, matemática, física e astronomia; nela se reuniam os curiosos e sábios da época; em 391 d.C. foi destruída totalmente, e com ela sumiram obras das quais nunca mais tivemos conhecimento.

Eram nesses depósitos de papel, chamados bibliotecas, que se reuniam os sábios para discutir e aprender. Nesses encontros, eles estudavam todo o material reunido e faziam um apanhado geral da obra; um exemplo disso foi a famosa reunião de 72 sábios judeus que traduziram as sagradas escrituras judaicas para o grego, dando como resultado a “Septuaginta”.

Alguns particulares escreviam sua própria obra e a guardavam zelosamente; após sua morte a obra era encomendada a algum poderoso que a mantinha em ordem e a defendia de ataques; Aristóteles, por exemplo, teve seus escritos guardados por seus discípulos durante 200 anos, até que Sila, levou o pouco que sobrou para Roma, e mandou fazer cópias em 70 d.C. Se estima que graças a este ato, 10% da obra do filósofo chegou até nós.

O copista
Já era evidente que o conhecimento organizado gerava cultura e esta era necessária para o bem estar das pessoas e países. Como era muito difícil ter mais que uma cópia de uma obra, os poderosos pediam para viajantes que trouxessem obras novas para enriquecer seus acervos e tirar proveito dessa informação toda. Assim, nasceu a figura do copista, que a sombra de sábios, reis e conventuais, aprendeu a difícil arte da leitura, para depois conhecer as ainda mais difíceis técnicas da escrita. Muitos deles eram funcionários, escravos, frades, noviços, monges.
COPISTA TRABALHANDO

Cassidoro (490-581 d.C.) criou um mosteiro na Calábria, instalou um “scriptoria” e decidiu nele copiar as grandes obras latinas. No livro “As instituições”, faz elogios aos copistas: “Ao reler as escrituras, eles enriquecem sua inteligência, multiplicam os preceitos do Senhor, por meio das suas transcrições. Feliz aplicação, estudo digno de louvor: pregar pelo trabalho das mãos, abrir e dar seus dedos às línguas, levar silenciosamente a vida eterna aos homens, combater as sugestões do diabo pela pena e pela tinta…” Ao morrer, seu acervo foi transferido para Latrão, sede do bispado de Roma, e daí muitos dos seus livros “copiados” se espalharam pela Europa.

Foi também no “scriptoria” que a escritura foi evoluindo, no século VII, Carlos Magno dá diretivas para padronizar a escrita em tamanho pequeno, bem legível e regular, o que deu origem ao nome da escrita “Carolina”, e que foi escolhida pelos primeiros impressores do século XV, e ainda a encontramos na escrita atual.
A cópia de obras literárias, religiosas ou profanas teve muita importância, já que os artistas – ou artífices – do mosteiro que exerciam a caligrafia podiam vender o fruto de seu trabalho, dando ao mosteiro recursos para o sustento dos irmãos e para a caridade com os pobres e os hóspedes. A transcrição dos manuscritos poderia também assumir um caráter de “penitência”, cumprindo um objetivo ascético, posto que impunha ao copista um verdadeiro “tormento”, como afirma um monge do século IX, Arduíno de Saint-Wandrille: “Quem desconhece a labor de escrever, nunca poderá conhecer o tormento do trabalho”.

As iluminuras
No intuito de aperfeiçoar e enriquecer as obras literárias surgiram as “iluminuras”, que são magníficas ilustrações feitas a mão. As primeiras obras do gênero são da Irlanda e datam do século VII. O artista pintava exagerando no capricho e nos detalhes, usando cores fortes e ornamentos em ouro e prata, e estas eram usadas para ilustrarem as capas, os capítulos e até os parágrafos. Maravilhosas obras de arte chegaram até nós através de livros que as continham. Esta é uma das primeiras formas de arte presente nos livros, visto que as gravuras eram usadas como obra de arte independente.

O genial invento de Gutemberg foi apagando as luzes destes extraordinários artistas, o que não tirou o hábito da escrita e da cópia; até metade do século XX, era muito difundida a ideia de que uma obra para ser compreendida deveria ser copiada a mão por inteiro. Devemos concordar que isto é uma absoluta verdade pedagógica, mas hoje com a necessidade de produção em massa, e a inclusão e mídia digital, perdeu a utilidade. Em 1973 visitei um sebo em Milão, onde era grande e maravilhosa a oferta de manuscritos, iluminuras e livros copiados, até hoje oferecidos a venda em diversos portais de sebos, a preços astronômicos.


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