Você sabe mesmo ler?

Os livros didáticos estão cheios de exercícios de interpretação de texto. Lembro que, na escola, achava um exercício ridículo, por ser tão simples. Era só ler o texto – se ele era sobre bicicleta, responder que o texto falava sobre bicicleta; quando a pergunta era sobre cores, era só retornar ao texto e procurar a relação de cores. E por aí vai. Bastava repetir o que estava escrito. Hoje existe o termo analfabetismo funcional, e de certa forma ele trata justamente disso – interpretação de texto, ler nas palavras do texto o que o texto realmente diz.

O problema é que raramente lemos um texto de maneira neutra. Chegamos com um julgamento prévio do que está escrito. Esse julgamento pode se basear na opinião prévia que formamos sobre o autor (se é alguém que eu gosto ou detesto), ou sobre a publicação onde o texto está (tenho expectativas diferentes sobre um texto publicado na Veja ou na Carta Capital, por exemplo), ou sobre o assunto tratado (já sou contra ou não tenho opinião formada?). Nossa simpatia ou antipatia prévia contaminará a leitura, e de maneira inconsciente levaremos a nossa interpretação para aquela direção – o autor detestável nos parecerá ainda mais detestável e equivocado; aqueles de quem gostamos parecerá dizer coisas ainda mais interessantes e sábias do que está escrito.

Não há nada de errado em ter opiniões, em debater mentalmente com o autor – ler é justamente um exercício de opiniões. Lemos para sairmos diferentes, para enriquecer com o que foi lido. O problema está em confundir o que é nosso com o que está no texto. Não dá pra colocar palavras no autor, por mais que pareça que ele as diria ou que o sentido do texto parece muito com isso. Um texto tem uma estrutura, um número fixo de sentenças, um fim. Ele não é como um organismo vivo que muda com o tempo, com o humor ou com o dia.

A maneira de ter uma boa interpretação de texto é fazer exatamente o que fazíamos na época dos livros didáticos: voltar ao texto. Uma releitura será capaz de esclarecer de uma vez por todas o que o autor disse. Procure o trecho, o verbo, o exemplo e eles estarão lá, iguaizinhos à última vez que foram lidos. Se quiser colocar outras idéias, pode colocar. Mas tenha claro para si mesmo – e deixe claro caso vá produzir um texto ou uma crítica – que a partir daquele momento é uma interpretação sua.

Fonte: Livros e Afins

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