Só porque é tradição?

24 de novembro de 2011

Nunca fui favorável em encontrar justificativas para a continuação de certas barbáries em nome da tradição. Dois exemplos: a farra do boi, em Santa Catarina e as touradas, na Espanha. Só porque são um traço cultural de determinadas regiões devem se perpetuar para todo o sempre? Convenhamos, se você fosse o animal, e não a pessoa, a que agride e mutila, não veria muito sentido nisso.


Nem vamos falar no que acontece nos rodeios. O assunto daria muito pano pra manga e entraríamos numa polêmica sem fim. Pensei nesse assunto ao descobrir que na China ainda persiste uma tradição deveras curiosa. E até certo ponto inofensiva. É o seguinte: segundo uma crença que remonta a séculos, os chineses que morrem solteiros precisam de uma “noiva cadáver” para os acompanhar no túmulo. E não há família que não se disponha a gastar uma pequena fortuna para cumprir o ritual.


Os pais chegam a pagar o equivalente a até 50 mil reais pelo direito de enterrar o corpo de uma moça ao lado do filho. Mesmo que esse tenha morrido há diversos anos, eles só se sentirão em paz quando conseguirem realizar essas bodas além da vida.


No longo governo de Mao Tsé-tung essa prática foi duramente reprimida. Mas com a expansão financeira de muitoshabitantes, ela voltou com toda força. Nada demais, se isso não acabasse endividando moradores, principalmente do interior, que não se importam em fazer enormes sacrifícios para garantir o bem-estar de seus mortos.


Esses casamentos fantasmas viraram uma realidade cotidiana. Tanto assim que começou a surgir uma espécie de tráfico de corpos recém falecidos. E, consequentemente, de um mercado negro que os oferece a preços inflacionados.


Você ainda acha que deve seguir cegamente algo só porque gerações anteriores assim o fizeram?




Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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