LIVROS QUE CANTAM

Crônica retirada do livro "Sala de Embarque" do autor Marcos Mantovani.
"Em conversa com um amigo cinéfilo, surgiu a dúvida: quem vence a briga, o livro ou o filme? Eu arrisco: um filme dificilmente vai ter a capacidade de bater um bom livro, não na intensidade da reflexão (e se o livro que você escolheu fizer parte do grupo daqueles raros que conseguem até cantar, chega a ser covardia). Com o livro temos tempo para ponderar, dá para voltar atrás um instante e reviver o último parágrafo com novo ponto de vista, dá para encontrar significados muito mais fortes do que os que aparecem numa tela. No livro somos nós a dar o ritmo da história, nós que aceleramos ou freamos uma imagem, um pensamento, um gesto, uma fala importante. Claro que o filme também proporciona isso tudo, porém sempre num degrau abaixo, assim eu acho, contrariando os cinéfilos.


Ainda criança, depois de folhear qualquer livrinho bobo ou uma revista em quadrinhos, me punha a pensar em aventuras imaginárias, façanhas impossíveis, odisseias mirabolantes. Eu rabiscava roteiros fantasiosos. Colocava-me como personagem principal, soberano, figura destinada a respeitáveis feitos. Eu era o herói desacreditado que reunia forças e retornava dos abismos do mundo. O herói que fazia pouco-caso do perigo e cravava a espada na barriga rechonchuda do vilão. O herói que salvava a mocinha de calabouços perdidos dentro de castelos fantasmagóricos. O herói que dava beijocas nos lábios juvenis da mocinha recém-resgatada. O herói que cruzava oceanos tenebrosos dentro de grandes barcos de pirata, fingindo ser um pirata, para os piratas depois capturar. Letras. Frases. Imaginações...


Divido aqui com você uma rica experiência que vivi dentro dessa “rivalidade” livro versus filme... Na metade de 2006, com mais de um mês de férias pela frente e sem chance de ir para a praia ou montanha, decidi caminhar pelos três volumes do livro do sul-africano John Ronald Reuel Tolkien, O Senhor dos Anéis. No cinema, a premiada trilogia de Peter Jackson proporciona absoluto encantamento, há batalhas pitorescas, cenários insólitos, personagens inimagináveis, há de tudo. Entretanto, através do calhamaço (1229 páginas, editora Martins Fontes) de Tolkien, uma nova e surreal perspectiva ganha formato aos poucos, frase a frase. Certamente teria sido mais interessante ler o livro antes de assistir o filme, mas assim mesmo foi uma caminhada importante. E o que marcou aquela leitura foi a música. Durante vários momentos eu tive a companhia (inusitado pano de fundo) do CD do filme, tocando bem baixo, ajudante da imaginação. O que eu quero dizer é que O Senhor dos Anéis não é uma obra qualquer. J.R.R. Tolkien, ex-combatente da primeira guerra mundial, escreveu um livro raro que – como se fosse uma mágica absoluta em mistério – tem até mesmo o espantoso domínio de cantarolar."





Publicado com a permissão do autor. 


Livro disponível no site Belas-Letras

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