Escola para adestramento humano


Um dos grandes prazeres em caminhar, além dos óbvios benefícios físicos, é que acabamos conhecendo outras pessoas, trocando impressões ligeiras sobre a vida, etc. e tal. Se o novo amigo estiver com um cachorro, então, é parada certa.  Foi o que aconteceu comigo na semana passada.
Um simpático senhor costuma passear com seu igualmente simpático vira-lata. Você olha pra ele e já sente empatia na hora. Todo brincalhão, não espera que nos aproximemos dele: é sempre o primeiro a sinalizar o interesse nessa nova relação. É um bebê crescido. Puro afeto.
Não bastasse essa qualidade, descubro, em conversas com o dono, que quando ele vê uma faixa de segurança, para imediatamente. E só segue quando autorizado a fazê-lo. Disse-me que o processo de adestramento foi fácil. Que agora, sem a sua anuência, só arrastado para ele atravessar a rua.
Pois é. Vocês não acham que poderíamos usar a mesma técnica para os humanos? Principalmente quando estão dentro de seus carros. Como sinaleira amarela não faz ninguém parar, não é raro vermos carros invadindo toda a faixa. Mas só o fazem porque senão acabariam atropelando algum transeunte que resolveu pôr em prática seus direitos. A possibilidade de ocorrer um acidente é muito grande.
Fico por aqui pensando em como esse adorável cão pode nos dar verdadeiras lições de civilidade. Se não der certo educando dentro dos moldes convencionais, proponho uma escola de adestramento para homens e mulheres afoitos. Repetir, repetir, repetir, até que um dia se torne absolutamente natural. Talvez Pavlov estivesse mesmo com razão.
Abraços,   Gil.


(Crônica retirada da página Mar de Ideias)
Livros de Gilmar Marcílio: A Vida Sem Manchete e O Mundo É o Que É

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