Bate papo com Gilmar Marcílio

A Editora Belas Letras bateu um papo com o autor Gilmar Marcílio do livro " A Vida Sem Manchete" e vai mostrar um pouco para você o que rolou na entrevista.

O que o leitor vai encontrar em "A Vida Sem Manchete"?

Este livro é o resultado de dois anos de trabalho escrevendo crônicas semanais para jornal. Como os meus textos também flertam com o ensaio, eles não estão comprometidos com fatos ou situações acontecidos na semana em que foram publicados. Procuro uma ampliação do olhar, embora eu contemple sempre o cotidiano, o que observo acontecendo ao meu redor. Mas sempre tendo como suporte a filosofia, a percepção analítica mais apurada, sem perder de vista, no entanto, o leitor que busca uma tradução para o que o inquieta ou causa felicidade. É, também, a seu modo, uma tentativa de educação que faço comigo mesmo, e acima de tudo, um exercício de fuga do senso comum, do banal. Ao colocar uma lente de aumento sobre sentimentos e situações que me tocam, vou afinando a minha sensibilidade. Assim, espero que o tempo, com seus discretos e continuados furtos, também nos dê uma certa serenidade para aceitar a inexorabilidade e o encontro com os nossos limites. Sejam eles de ordem física ou emocional.


Você tem a habilidade especial de transformar a observação da natureza e de comportamentos humanos em crônicas. Como se dá esse processo? É constante – quando você menos espera acontece um fato que vira assunto – ou você para e pensa: agora vou observar para escrever?

A escolha dos assuntos que vou abordar muitas vezes é aleatória, acontece independente da minha vontade. Andando por uma rua eu posso me deparar com algo que me chama atenção e transformar esse emaranhado de sensações num texto. Cada vez mais acredito que os encontros, sejam luminosos ou nefastos, acabam determinando a nossa maneira de ser e sentir o mundo. Em outros casos, mais especificamente nos textos de caráter reflexivo, a arte está sempre presente como um elemento vital para a ampliação da lucidez, para a possibilidade de fazer escolhas mais acertadas, deixando de lado a necessidade de concordância com a percepção do outro. Escrever, para mim, é principalmente um processo de assepsia interior, uma terapia que faço comigo mesmo em busca de uma vida mais serena, que não esteja tão contaminada pela ação e pela pressa. Nesse sentido, A Vida Sem Manchete traduz essa minha vontade de ir armazenando cada vez mais silêncio, serenidade, e até uma certa forma de deseducação, de me libertar de tantos conceitos inúteis que vamos assimilando ao longo da nossa existência.

O que significa a filosofia na sua vida e como ela influencia nos teus textos?

À maneira dos primeiros filósofos, também acredito que ela só tem algum valor, algum sentido, se traduzida em ato. Eu posso me valer de uma retórica de alta qualidade e utilizá-la para o mal, para prejudicar quem está próximo de mim. Saber dizer é insuficiente. A palavra precisa migrar para a ação, estar comprometida com o que fazemos, com os atos mais banais de nossa vida. Nesse sentido, é preciso roubar-lhe o caráter de sacralidade, derrubando-a do altar. Filósofos somos todos nós que não aceitamos uma ordem pré-estabelecida, que buscamos uma identidade e uma possibilidade de ver a vida em perspectiva. Sabemos que tudo está manchado por algum tipo de interesse. A filosofia desperta em nós o desejo de liberdade. E, uma vez instaurado em nossa alma, ele não nos abandona jamais.
Apesar de muitos acreditarem no oposto, a filosofia pode nos tornar muito felizes. Modestamente, sou um exemplo disso. Não faço a apologia da tristeza ou da melancolia. Nosso destino é a alegria, o gozo, a busca pelo sol. Queriam os deuses que um texto ou uma frase que escrevi alhures possa ter provocado em alguém essa certeza.

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