Ruídos

por Gilmar Marcílio

Silêncio – espécie não catalogada de oxigênio para a alma

Num mundo de excessos, o que mais encontramos são ruídos. Não somente esses que ensurdecem e deslocam o nosso centro de gravidade. Se você parar e prestar atenção, vai descobrir uma gama infinita de pequenos barulhos que destroem a nossa tranquilidade. É praticamente impossível encontrar um pequeno espaço que ainda não esteja contaminado. E vamos levando. Só que aquilo que não nos parece grave acaba deformando, lentamente, a forma como recebemos os estímulos externos. Tudo precisa ser berrante, dito em alto e bom som, com o máximo de luzes incidindo sobre o objeto ou a situação que queremos enfatizar. Essa também é outra maneira de viver cercado de ruídos. É quando nada mais pode permanecer na sombra, tudo devendo ser exposto como num grande supermercado. E a banalização de nosso cotidiano acaba tendo consequências nefastas sobre a esfera emocional.

O grau de sensibilidade que determina como nos portamos diante das mais diversas situações acaba irremediavelmente comprometido. A existência começa um patamar acima do que nos acostumamos a considerar como normal. Aí esse normal passa a ser o grito, o cheiro agressivo, a corrida, a falta de tempo. Os meios tons desaparecem ou simplesmente não conseguem mais ser vistos quando nossos olhos se debruçam sobre eles. É só dar uma rápida espiada numa festa de adolescentes para descobrir o óbvio: tudo precisa ser visceral, forte, estrondoso, para capturar a atenção dessa turma. Nem vamos falar no repertório musical porque isso já se tornou uma questão quase psiquiátrica. O que vem na manhã seguinte? A descoberta do tédio, de uma realidade vários decibéis abaixo e, compreensivelmente, desinteressante.

Os ruídos nos privam da capacidade de explorar as sutilezas que só podem existir onde há silêncio, essa espécie não catalogada de oxigênio para a alma. Quando nos permitimos uma pausa, quando o impulso de agir já não é tão forte, alcançamos um relaxamento que acaba se parecendo com esses estados de serenidade preconizados pelos místicos. Mas já estamos tão adoentados que mal conseguimos suportar alguns minutos em contato com o nosso interior. Faça a experiência. Tudo se torna incômodo, desconfortável, e corremos em busca de mais doses de adrenalina.

Já que é praticamente impossível parar com o barulho que acontece dentro da nossa mente, poderíamos nos esforçar um pouco para diminuir essa orgia auditiva da qual somos vítimas (e agentes) todos os dias. Quando estou caminhando pelas ruas e um carro se aproxima com o som a todo volume, os piores instintos afloram dentro de mim. É que sempre, sempre, sempre é música sertaneja ou funk da pior qualidade – um verdadeiro assassinato do mais elementar bom gosto. E repare: a película dos vidros é tão escura que parece que o carro está sendo dirigido por um fantasma. É uma maneira de se blindar contra a crítica alheia. Como é que alguém pode se divertir incomodando os outros? De onde é que essas criaturas tiraram a ideia de que isso é música?

Machado de Assis reclamava, ainda no Século 19, do forte pisotear do casco dos cavalos que passavam sob a sua janela. Hoje isso nos parece de uma inocência comovedora. São outros os tempos e outras as queixas. Mas temo pelo que o futuro nos reserva. Talvez os mais ricos possam se abastecer de pequenas cotas de isolamento, como hoje compramos ações no mercado financeiro. Ou nem isso. Talvez já tenhamos decretado a morte de um mundo e o silêncio seja mercadoria vencida que ninguém quer mais comprar.

Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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