Mentiras sexuais

por Gilmar Marcílio

Não vejo mal algum em reconhecer que falhamos na cama

Quando estou com vontade de me divertir, leio alguma pesquisa sobre o comportamento sexual humano. Beira o realismo fantástico, a ficção científica. Parece que somos todos muito bem resolvidos. As mulheres sempre têm orgasmo e os homens nunca passaram pelo constrangimento de não ter ereção na hora H. A média semanal com que praticam sexo? De quatro a cinco vezes por semana. Duração? Mínimo de uma hora. Só falta acrescentar que é à luz de velas. Todos satisfeitos com o próprio corpo, felizes com seus cônjuges, 30 anos depois de tê-los conhecido. Tudo asséptico, bonito, perfeito. Pena que nem sempre seja verdade. Ninguém mente mais do que quando está respondendo anonimamente a um relatório sobre suas atividades eróticas. Somos garanhões e ninfomaníacas prontos para atacar quem fizer o mais discreto aceno. O fato é que só nos permitimos revelar nossas frustrações nesses modernos confessionários em que se transformaram os consultórios médicos e terapêuticos. Quando muito.

Com isso não quero dizer que a humanidade inteira vive sua sexualidade de forma canhestra, medrosa, frustrada. Mas com tantos interditos que ainda povoam nosso inconsciente e com o desejo desesperado de seguir os padrões ditados pela moda, não é de se estranhar tanta distância entre o “x” que colocamos nas opções de resposta e o que se passa na intimidade. Nossas expectativas deveriam ser um pouco mais modestas, adequadas ao que o mercado oferece. Além do mais, a quebra de alguns tabus seria de enorme ajuda na construção da nossa felicidade afetiva e sexual. O prazer quase sempre é encontrado na sombra, longe de casa, numa hora bem tardia da noite. Não tenho nada contra a transgressão, seja ela de que ordem for. O problema é quando a exceção passa a se constituir na única possibilidade de gozo. Entendido aqui literalmente.

A socióloga Rose Marie Muraro relata fatos interessantes em seu livro Os Seis Meses em que Fui Homem. As mulheres mais humildes, que vivem em espaços afastados dos grandes centros e com baixa renda econômica, costumam seguir à risca o que preconiza a religião e a moral. Já entre a classe média e alta, mais urbana, é bem diferente. Uma coisa é o discurso, todo comportado. Outra é a prática. Muitas ainda permanecem casadas, mas se permitem ter amantes e namorados avulsos sem sentir culpa alguma. Os homens sempre tiveram mais liberdade nesse campo. Com a necessidade de provar que são machos 24 horas por dia, não é raro saírem à caça mesmo sem muita vontade. Vão para mostrar para os outros que estão com a testosterona tinindo. E aí acabam incorrendo no mesmo erro. Ou seja, o que deveria desencadear um diálogo saudável entre parceiros acaba se transformando numa série de equívocos guardados a sete chaves. Ninguém pode mostrar o que é. Precisamos todos aparentar. A isso se chama sociedade.

A questão é delicada e é bem possível que vá demorar muito tempo para que essas mentiras em cascata deem lugar a algo parecido com a sinceridade. Não vejo mal algum em reconhecer que eventualmente falhamos na cama. O egoísmo muitas vezes impera e a satisfação do outro passou a ser secundária. Negar essa situação não ajuda em nada a melhorar o encontro do nosso corpo com outro corpo. Uma das melhores coisas da vida, pois muito já se disse que só os tolos acreditam que sexo é um ato meramente físico. Nunca é. Quando vem acoplado ao amor, é fantástico. Mas, convenhamos, não costuma ser tão ruim quando isso não acontece. Talvez neste quesito as mulheres percam um pouco. Aproveitam menos do que nós. Querem sempre o pacote completo.

Não acredite, portanto, em tudo que as revistas Nova e Marie Claire andam divulgando por aí. Não é nada fácil ser aprovado com louvor no quesito sexual. Com menos discurso e mais treino, teremos ação de qualidade. É a melhor maneira de ser o primeiro da classe.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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