O lado bom

por Gilmar Marcílio

Apressados nos julgamentos, esquecemos que tudo sempre tem dois lados. Ou mais. Os exageradamente pessimistas costumam ver catástrofe em qualquer situação. Uma dor de cabeça é interpretada como o primeiro sintoma de que estão com câncer. A internet vai acabar com os relacionamentos, só existe materialismo no mundo, o derretimento das geleiras é o sintoma mais evidente de que o fim se aproxima. E assim vão adiando a vida com medo de se sentirem despreparados para enfrentar tantas tragédias que se anunciam. Porque tudo é uma hecatombe em gestação, pensam.

Mas há aqueles que felizmente ainda guardam reservas de alegria. Por mais dificuldades que encontrem em seu cotidiano, sabem deixar a alma em repouso. Não escolhem o caminho fácil do maniqueísmo: nada é só bom ou só ruim. Mesmo quando estão envoltos em problemas ou angustiados, interpretam isso como uma contingência, poupando o universo silencioso das perguntas que a humanidade se fez desde sempre. E para as quais, na maioria das vezes, resposta não há. Toda arrogância é subtraída diante dessa postura de aceitação. Difícil definir o papel que o acaso desempenha. Como também o é quando tentamos decifrar os códigos que regem nosso destino. Tudo é o que é, numa simplicidade desconcertante, que muitas vezes interpretamos erroneamente como um desígnio dos deuses. Mistério sobre mistério.

Gosto de conviver com pessoas que sabem pisar leve, que têm solas de vento, como disse Rimbaud. Que quase não deixam marcas por onde passam. Que descobriram muito cedo que não vale a pena transformar tudo num drama de proporções shakespearianas. Serenos, nos ensinam que às vezes basta respirar, olhar mais atentamente, deixando que tudo passe. Nos templos budistas, os mestres proíbem os monges aprendizes de jogar fora as flores murchas. Elas nos lembram o efêmero, revelando como é enganoso nos fixarmos unicamente na beleza, no esplendor. Essa percepção não deixa neles nenhum resíduo de revolta. Observam mais profundamente que nós; sabem que a sabedoria flerta com a aceitação.

São essas mesmas criaturas generosas que desencavam das circunstâncias adversas uma lição subliminar. Devem ser dotadas de um raio-x psíquico que as impede de sucumbir ao desespero. São parecidas com as manhãs, esses homens e mulheres que encontram no tranquilo olhar a melhor forma de continuar remando quando tudo está à deriva. Parece que há dentro deles uma espécie de farmácia espiritual. Todos os remédios estão lá, toda cura é possível, mesmo diante dos abismos da morte.

Nunca se sentem traídas, pois sabem que as razões dos outros nos escapam. Contentam-se em testemunhar afetivamente as motivações alheias. Estar ao seu lado é como descansar depois de um dia de movimento e fúria. Eu procuro ficar próximo, o máximo que posso. Porque sei que é ali que vou aprender mais do que em qualquer livro.

Num primeiro momento, costumamos nos sentir diminuídos quando estamos ao seu lado. Porque elas nos mostram o quanto perdemos ao escurecer a existência. Porém, há algo de muito vivo nelas que, desde o primeiro contato, funciona como uma transfusão de sangue. Dói um pouco no começo, mas depois nos sentimos invariavelmente mais fortes.

Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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