Nós, os animais

por Gilmar Marcílio

Se você é dos que acreditam que estamos no centro do universo, que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, dê uma olhada no interessantíssimo livro do cientista brasileiro Fernando Reinach e provavelmente vai mudar de ideia. Mas não se preocupe, em A Longa Marcha dos Grilos Canibais não se defende apaixonadamente nenhuma tese que nos incite ao ateísmo ou coisa semelhante. Você descobrirá, sim, o óbvio, o que está na frente do nosso nariz e nos recusamos a ver: somos animais como quaisquer outros do planeta. Tudo o que queremos, em última instância, é perpetuar os nossos genes. Igual ao que fazem os mosquitos, as girafas, as formigas, os sapos e todos os demais seres vivos do planeta terra. Nosso sonho de que fomos bafejados pelos deuses se esboroa num instante.

É Darwin puro. Cada crônica é recheada de provas incontestes. Você vai encontrar uma espécie de súmula do comportamento humano. Onde costumamos ver motivos transcendentais, para agir dessa ou daquela maneira, o autor nos mostra que tudo não passa de uma corrida rumo ao prêmio que garantirá a continuidade da raça. Triste? Nem um pouco. A revelação de que não somos diferentes de todos os que dividem conosco um plano de vida e de morte só reforça a importância de termos um pouco mais de humildade. E de aprendermos a cuidar mais do lugar que está nos hospedando. Antes que seja tarde. Afinal, a velha teoria de que tudo está interligado, que ao afetarmos um sistema estaremos comprometendo a qualidade de vida de todos, tem se confirmado estudo após estudo.

É interessante perceber que nossa sobrevivência depende de uma série de pequenas trapaças que utilizamos ao longo do tempo. Truques aparentemente inocentes que garantiram a nossa permanência aqui. Os macacos fazem a mesma coisa. Os ratos e as moscas também. Saber disso é o resultado da persistência em colocar o corpo desses nossos parentes sob o microscópio ou de dedicar horas e mais horas à pesquisa de modelos comportamentais que acabaram por definir nossa fisionomia através das eras.Não existe bondade, da forma como a entendemos, no reino animal. E muito menos um sentido moral. É gratuidade pura. Cada um lutando para não ter o mesmo destino dos dinossauros.

Outro dado curioso é que alguns animais se submetem a suicídios coletivos para o bem comum. Muitos aceitam morrer para que os mais fortes possam continuar em sua caminhada. Você conhece algum tipo de altruísmo semelhante entre nós? Não vale citar o que alguns tresloucados costumam fazer em nome de sua religião. Ou seja, a inteligência e a sagacidade não são atributos sobre os quais temos exclusividade. Os estratagemas que encontramos espalhados pela natureza fazem com que nos sintamos verdadeiros iniciantes na arte da sobrevivência. A diferença é que somos tão violentos e vorazes que estamos colocando em risco um complexo organismo que demorou milhões de anos para encontrar seu equilíbrio. Conclusão: o dia em que nos extinguirmos representará um alívio para todos os que ficarem por aqui.

Por fim, cai a última pretensão dessa nossa espécie autofágica: mesmo que consigamos acabar com tudo, daqui a alguns anos (dezenas, centenas ou milhares de, pouco importa), tudo começará novamente. Há forças que são incontroláveis. No máximo, ficam adormecidas, esperando o momento certo para se alastrarem outra vez. Tudo é uma questão de evolução e seleção natural. Nosso desaparecimento não será praticamente sentido. Os grilos estão prontos para ocupar o nosso lugar.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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