A arrogância, esse disfarce

por Gilmar Marcílio

Os arrogantes usam máscaras para disfarçar sua insegurança.

Máscaras, quem não as usa? Falo isto a propósito de um comportamento que se repete cada vez mais. Estamos nos tornando muito arrogantes. Os avanços tecnológicos e as conquistas da medicina deixaram em nós resíduos de prepotência. Parece que uma voz está sempre a nos dizer: você pode ir mais, ir um pouco mais. Os limites desapareceram diante de nossos olhos. Num mundo sem paredes, onde qualquer território pode ser visitado, é até compreensível que percamos a noção da própria finitude.

Há uma ordem espalhada no ar: é preciso competir. Por conta disso, quem conquistou algum cargo de destaque na área profissional em que atua acaba solapando seus princípios, às vezes solidamente adquiridos na infância, unicamente para não perder o posto. Que é de nosso tempo crer que valemos por essas etiquetas invisíveis que parecem coladas nas costas: gerente, diretor, coordenador geral. Tão pouco, meu Deus! O resultado disso é um bando de seres desesperados, buscando unicamente uma ascensão social que se desmancha ao sabor do interesse de terceiros.

Vamos aos arrogantes. O perfil clássico é sempre o mesmo: peito estufado, nariz empinado, frases curtas, linguagem cortante. Do alto de seus dois metros, dois metros e meio, olham diretamente para nós – mas é um olhar vazio, sem sentimento. Pode-se pensar que aí está alguém seguro, que conhece tudo e tudo sabe fazer. Enganamo-nos. Geralmente usam essa máscara para disfarçar uma imensa insegurança.

Reencontrei, há alguns dias, uma amiga de outros tempos. Naquela época, valia-se de sua beleza física para conquistar o que queria. Era uma arma poderosa e nunca deixou de usá-la, com resultados invejáveis. Achava os estudos maçantes e tinha inteligência mediana, quando muito. Mas como conseguia se vender bem, essa minha amiga! Hoje eu sei que por trás daquela aparente rocha escondia-se uma mulher incapaz de acreditar em si mesma e nas inabaláveis qualidades que sempre reiterava ter. Passados os anos, percebo que algo mudou. Ela já se dá conta de que a partir de agora precisará estabelecer suas conquistas em outras bases. Mas, inevitavelmente, ainda persiste aquele seu jeito que parece dizer o tempo todo: “vejam como eu sou especial, não há a menor possibilidade das coisas não darem certo comigo.” Só que, no meio dessa frase, quase se pode ouvir um disfarçado pedido para que, por favor, se creia no que ela está dizendo. Um bom terapeuta faria uma festa com sua história.

Disfarces, tantos disfarces. Mesmo percebendo quando eles estão sendo usados descaradamente, é difícil aceitar a ideia de que estão aí para encobrir uma espécie de deficiência de caráter. Rezam os ensinamentos mais básicos da psicologia que, por trás de tudo o que vem à tona, existe uma quantidade muito maior de pensamentos e desejos não manifestos. Usamos o autoengano o tempo todo. Por isso, na próxima vez em que você deparar com alguém autoritário, cheio de pose, pense que essa pessoa merece mais a sua compaixão do que a sua ira. É difícil, com certeza. Porque quem é vítima de um desses ditadores frustrados precisa ter um controle emocional quase sobre-humano. Consolo-me sabendo que deve ser exaustivo manter essa fachada o tempo todo. Mandar, mandar sem intervalo, sem descanso. Obrigado. Prefiro pertencer à confraria dos que também sabem obedecer.

Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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Promoção do livro Pra Ser Sincero

Na próxima quarta-feira, dia 14 de abril, inicia uma nova promoção do livro Pra Ser Sincero. Serão quatro ações, três delas envolvendo brindes e exemplares autografados e uma delas com a venda da exemplares pelo menor preço do mercado. A promoção vai durar apenas 48 horas e se refere aos últimos exemplares da primeira edição da obra, lançada em janeiro.

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