O erro e o riso

por Gilmar Marcílio

Elas se magoam por tudo. Uma palavra mal colocada numa conversa, um olhar com supostas segundas intenções, um atraso de cinco minutos. Você também deve conhecer criaturas que vivem colocando tudo na balança. Ficamos desencorajados de tentar uma aproximação maior, pois nunca se sabe ao certo se corresponderemos às expectativas.

O contrário: gente leve, que não nos obriga a adotar sua forma de ver e de sentir a realidade. Ando muito interessado em encontrar esses espécimes raros, pois o peso e a gravidade andam progressivamente tomando conta das pessoas. Convenhamos, não dá para medir com régua cada palavra, cada atitude. O improviso é sempre mais interessante - pena que não seja tolerado pelos que se chocam facilmente. Esses vivem numa camisa de força, achando que os outros têm que ser um modelo completo e acabado do que eles são. Como é difícil ficar próximo de seres definitivos. Tudo sempre igual, para não correr o risco de ter que inventar alguma coisa.

Com o passar do tempo, nossa tendência é a da acomodação. O desconhecido passa a assustar. Ainda assim, acredito que seja possível seguir outro roteiro. E nele não cabem os que se sentem insultados pelo diferente, por aqueles que se permitem ousar, e que apostam na surpresa. Incomodar-se porque a vassoura foi guardada com as cerdas para baixo? Ou porque não apertamos a tampa do creme dental? Miudezas que nada são diante do que verdadeiramente conta. Já não tenho mais paciência nem saúde para esse tipo de convivência.

Gosto de pensar na escassa importância que quase tudo tem. Poucas coisas merecem ser levadas realmente a sério. É só a gente aprender a se distanciar um pouco do fato que nos perturba para descobrir que costumamos fazer muito barulho por nada, ou quase nada. Mudar o foco é uma boa estratégia para deixarmos de ser tão severos conosco e com os outros. Tudo é uma questão de disciplina. De treino. Não vale ficar dizendo para todo mundo que “eu sou assim e não consigo mudar.” Custa tempo e às vezes um bom dinheiro em terapia, mas dar a questão por acabada é ser reducionista.

Conheço uma mulher que fica escandindo as palavras como se estivesse prestando exame oral para a carreira diplomática. É quase possível visualizar a pontuação e os acentos quando profere uma frase. Parabéns para ela, que devorou inúmeros livros de gramática e resolveu pôr tudo em prática. O que não dá é sair por aí achando que todos devem conversar em português castiço. Mas o fato é que ela se choca quando alguém comete um deslize verbal. Leia-se: o mundo seria bem melhor se as pessoas fossem como eu. Não é assim que nasce o desejo de totalitarismo? De ver todos usando o mesmo uniforme? Vamos relaxar, portanto, que os cemitérios estão cheios de criaturas que se imaginavam infalíveis e insubstituíveis.

A melhor prática para a elasticidade da alma ainda é o erro. E o riso. Um escorregão aqui, outro ali. Que alívio não precisar ser perfeito. E parar de sofrer quando não conseguimos uma ISO 9000 para nós mesmos. Não vamos nos torturar por detalhes. Melhor guardar nossas forças para o exame final. Por enquanto, estamos só ensaiando.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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