SÍNDROME DA ACESSIBILIDADE

por Gilmar Marcílio

Tenho me esforçado para aceitar com mais tolerância as inovações que o mercado despeja na nossa cara a cada dia. Mas não é fácil. O que era novidade ontem é visto hoje como item de museu. Luta inglória essa, a de ficar resmungando contra o novo, mesmo que em voz baixa. Penso nas inúmeras dificuldades que a vida cotidiana deveria apresentar há 100, 200 anos e me conformo. Vou seguindo o ritmo das coisas, mas sempre com um olho crítico de prontidão, que não me agradam as manadas, os currais.

Porém, há algo que me incomoda particularmente nessa história e que um amigo chamou certeiramente de síndrome da acessibilidade. É preciso que tudo esteja disponível o tempo todo, de preferência no menor espaço físico possível. Vamos colocar o mundo dentro de uma área de poucos centímetros quadrados. Se a internet não funciona, é o caos total. Se em determinado local não conseguimos obter sinal em nosso celular, é o caso de deixar as pessoas esperando, ir até a rua em busca de conexão e ver se há alguma mensagem, se alguém ligou. Até alguns anos atrás, esperar uma semana ou dez dias por uma carta era a coisa mais natural. Aliás, era poético, deixava em nossa alma uma expectativa, um silêncio de suspensão. Agora não, tudo é contado em minutos. Ligaram, tem que retornar. Recebeu uma mensagem, pare tudo o que estiver fazendo e corra para responder, pois deve ter alguém do lado de lá aguardando desesperadamente por sua resposta.

Agimos como se a existência se organizasse e dependesse de uma ínfima fatia de tempo. Um grande ensinamento que colho sempre que estou em minha chácara é aprender a respeitar o ritmo das coisas. Na natureza nada pode ser forçado. Aliás, pode, mas sempre com resultados desastrosos. Tudo flui como deve fluir, fazendo eco à famosa sentença: não apresse o rio. Por pensar assim, devo seguidamente passar a imagem de uma pessoa mal-educada. Sempre que possível retorno logo as ligações perdidas, mas não necessariamente trinta segundos depois. Idem para os e-mails recebidos. Não creio que a ordem universal sofrerá um abalo significativo com isso.

Ter tudo ao mesmo tempo, sempre. É uma divisa de nossa época que acaba deixando em nós um gosto de saudade. Pelo menos em mim. Que alegria esconder-se vez que outra, deixando que apenas suspeitem o que estamos fazendo. Não quero estar conectado dia e noite, ininterruptamente. Morro de pena desses todos que andam por aí, acessados continuamente na rede, sem descanso. Apesar disso, creio que a inteligência não precisa excluir nada do que a tecnologia pode oferecer. O melhor exemplo se encontra na medicina. Não está nos meus desejos secretos ter a barriga aberta a seco e muito menos um dente arrancado com boticão. Viva o laser, a anestesia e toda a parafernália que ajuda a diminuir a dor. Mas, por favor, vamos com menos sede ao pote.

Deveríamos, ao menos uma vez por ano, fazer uma terapia de choque: uma semana de convivência apenas com nós mesmos e com as pessoas que queremos bem, longe de jornais, internet, celulares. Desligar-se, percebendo outras formas de relacionamento. Aprecio as novidades, mas não os excessos. Sempre os achei perigosos.

Quero pertencer à turma dos modernos, mas não pretendo rivalizar com Deus.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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