SIM, NÓS PODEMOS

por Gilmar Marcílio

O famoso slogan de campanha do presidente americano Barack Obama poderia perfeitamente ser aplicado à grande maioria das mulheres. Sim, nós podemos, pensam e dizem elas, quando o assunto se refere a relações afetivas. É impressionante a capacidade que têm de acreditar que podem mudar o comportamento de seus namorados ou maridos. Seja logo após o primeiro encontro ou passados 40 anos, quando tudo está definitivamente sedimentado. Depois de longas observações in loco, dei-me conta de que, independentemente da classe social ou cultural a que pertencem, em algum momento esse traço irá se manifestar. Desde o mau humor até as tendências homicidas, tudo pode ser curado, pensam elas, com amor e dedicação (ou uma boa dose de humor, dirão alguns). E mais uma autoconfiança descomunal, é claro.

O fato é que elas jogam todas as fichas na capacidade de redenção que um ser humano pode exercer sobre o outro. Mas a realidade mostra que a questão é muito mais complexa, quando entramos nesse campo. As pessoas mudam? Raramente, muito raramente e só havendo interesses objetivos envolvidos na situação. Precisamos ganhar algo com isso. Somos duros na queda e não faz parte das nossas estratégias de sobrevivência ceder a impulsos emocionais. Portanto, é melhor pensar duas vezes antes de se atirar de braços abertos rumo ao precipício. A menos que a frustração reiterada esteja entre seus projetos de vida.

Conheço mulheres inteligentes, que têm autonomia financeira, mas se rendem com uma facilidade constrangedora ao primeiro gesto sedutor. Aqui a sagacidade não conta quase nada. Para quem observa do lado de fora fica um sentimento de incredulidade, de “não acredito que ela está se envolvendo com uma criatura dessas”. E olhe que não se está falando só de casos extremos, onde a ficha policial precede o melhor traquejo em sociedade. Perdoem, mulheres, mas isso merece um grande estudo de caso. Em primeiro lugar, vem à tona o velho sentimento de onipotência, de acreditar que, se em outras circunstâncias e com outras pessoas não deu certo, chegou a hora de mostrar que a estatística pode ser mudada. E viva o autoengano, já que nem sempre dá para suportar a verdade.

Tanto faz que seja numa favela ou na mais cosmopolita das cidades. O velho sonho de salvação parece estar sempre presente no ideário feminino. Basta ler uma revista Sabrina ou qualquer clássico da literatura que tenha se debruçado sobre o tema. Só muda a forma, o conteúdo é o mesmo. Não estou aqui desconsiderando o poder de persuasão que muitas mulheres possuem. Estados ruíram pela interferência delas e algumas vezes foram tomadas decisões na intimidade de um quarto que mudaram a vida de milhares. Homens, quando apaixonados, ficam bobos. Completamente bobos. Mas, apesar de eventuais vitórias, o cotidiano está recheado de tentativas que redundaram em fracasso. A esperança é uma aposta muito arriscada quando estamos falamos da pessoa com quem queremos passar o restante de nossos dias.

Já conheço o final de muitas dessas histórias. E nenhuma se parece com um conto de fadas. A realidade acaba sempre se impondo. Dolorida, implacável. Só depois de terem esvaziado caixas e mais caixas de lenços de papel é que concluirão que quase nada pode ser feito. Às margens do rio Pietra, elas sentam e choram.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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