20 e poucas pinturas

por Nando Reis

“Segunda-feira agora foi o lançamento do ‘Meu pequeno são-paulino’, livro que escrevi com ilustrações do artista plástico Rodrigo Andrade. Esse pequeno invento literário faz parte da coleção ‘Meu time do coração’, projeto da editora gaúcha Belas-Letras com alguns outros exemplares já lançados: Humberto Gessinger escreveu sobre o Grêmio, Serginho Groisman sobre o Corinthians, Fernanda Abreu fez o do Vasco, Gabriel o Pensador o do Flamengo. Embora seja destinado ao público infantil imagino que os livros atendam a todas as idades como se pretende toda a expressão de arte. Digo arte e não é a toa. Embora não queira me isentar com argumentos revestidos de falsa modéstia, no caso do livro que lançamos há um componente que realmente é belo e diferenciado – as pinturas que deram origem às ilustrações.
Quando aceitei o convite do editor, me foi feita a recomendação de indicar um ilustrador que fosse também torcedor do São Paulo.
Imediatamente pensei em Rodrigo Andrade, artista plástico e grande amigo meu, colega de escola e de arquibancada desde a adolescência. Já na primeira conversa imaginamos que as ilustrações pudessem vir através da pintura de pequenos quadros a óleo, a partir de fotografias ou mesmo imagens de TV dos grandes momentos das conquistas do nosso time. E vou dizer aqui também sem economia de elogios que o trabalho do artista ficou estupendo, magnífico! No dia do lançamento reunimos todas as telas que ficaram expostas para a apreciação daqueles que se dignaram a prestigiar o modesto evento. Pela primeira vez pude contemplar a série de 20 e poucas pinturas reunidas e penduradas na parede.
Descontando a questão pessoal das imagens tratarem de cenas do meu time de coração, que também haviam sido por mim escolhidas como fatos determinantes da minha história com o São Paulo, posso dizer que o fato de ver o futebol como tema dessa extraordinária coleção de pinturas expôs outra faceta desse esporte apaixonante: a beleza retirada de cada movimento. Assim como uma foto captura do tempo a imagem fragmentada e congelada, na pintura figurativa o recorte é idêntico. A beleza do contorno da perna na hora da explosão do chute mortal; a impressionante envergadura do goleiro quando alça o voo para defesa inimaginável; a harmonia da diferença dos traços de cada indivíduo no momento clássico da foto do elenco antes do início do jogo; e o próprio estádio repleto e colorido pela paisagem da floresta humana preenchendo os degraus de concreto…
As cores que compõem o uniforme de cada clube também são elemento importante nessa ligação feita pela cromática coerência. Preto e branco, vermelho e preto, vermelho, preto e branco, verde, azul celeste… Há nessa uniformidade das cores que conjugam uma mesma torcida um campo visual cujo reconhecimento cria uma sensação de conforto por meio desse elemento reconhecível, por essa riqueza compreensível. A cor é um signo tão forte que prescinde da ajuda das palavras. É paisagem visual, com trilha sonora de silêncio, música muda. Os olhos veem o que o ouvido não escuta.
Quando percorri sozinho a linha das pinturas penduradas na parede, com a galeria ainda vazia, meu coração se encheu com a lembrança da multidão alvoroçada de uma tarde ensolarada num estádio. Uma emoção aguada e lancinante me inundou de nostalgia. Lembrei de coisas que há muito estavam esquecidas num canto ermo da memória silenciosa. Lembrei de gente que já se foi dessa vida, mas permanece eterna na lembrança de uma saudade perdida. Assim como meu avô, minha mãe e meu amigo Marcelo.”

Publicado em 1º de outubro de 2009 no jornal Estado de S. Paulo

3 comentários:

  1. Nossa Nando, espero também recolher de dádivas a gratuidade da recordação sincera, e poder dizer: Nossa Vocês Vivem Aqui Dentro... Aleluia... Hare Hare...

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. eu nunca achei nenhum desses livros pra comprar aqui nas livrarias da região onde eu moro ( MG ) :\

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