SIMPATIA

por Gilmar Marcílio

Ao entrar na farmácia, a atendente me carrega no colo com seu sorriso. Tudo nela é mesura e delicadeza. Seu objetivo na vida parece se resumir a isso: o que fazer para atender às minhas expectativas. Seria imperdoável se eu saísse de lá insatisfeito ou, muito mais grave, sem algum dos produtos que precisava adquirir. E eu morrendo de pressa. E lá fora chuva e um frio siberiano. Quanto mais objetivo eu tentava ser, mais ela se esforçava para me mostrar praticamente tudo o que estava exposto nas prateleiras. Sempre encontrava um substituto muito melhor do que aquele que eu estava procurando. Não temos isso, mas se você experimentar essa nova marca, vai descobrir praticamente o segredo de como ser feliz. Meu Deus, pensei, como é que alguém consegue ser tão gentil? E em tempo integral. É um caso que merece admiração ou tratamento?

Eu falo com conhecimento de causa. Passo o dia me mortificando se fico com a vaga sensação de ter sido indelicado com alguém. Desdobro-me em obrigados, desculpas e por favor. Mas tenho tentado encontrar um ponto de equilíbrio para essas manifestações exageradas de civilidade que me acometem 24 horas por dia. Receio me tornar um simpático chato. É claro que a falta de educação é muito mais nociva e nem de longe eu sonho em ser apontado como aquele que nunca agradece e que não sabe reconhecer o que lhe fazem de bom. Mas acho que os dois excessos são prejudiciais para a nossa saúde psíquica. A prova disso é que depois que eu consegui me desvencilhar da muito prestativa vendedora de medicamentos fiquei rindo à toa, mas na hora tive vontade de conhecer mais de perto a sua jugular, confesso.

Pedir para que as pessoas sejam menos afáveis, quando tudo nos leva a crer que estamos nos tornando insensíveis ao outro, é um ato arriscado. Mas, convenhamos, como cansa ter que ficar com um sorriso congelado no rosto só para corresponder à expectativa alheia! Passei alguns dias me lembrando do esforço que a moça fez nos quinze minutos em que estivemos juntos. O resultado foi que eu quase desisti das minhas compras, mesmo que isso significasse caminhar mais duas ou três quadras naquela noite invernosa. Só para fugir dela. E fiquei pensando que a pobre criatura deve ficar totalmente exaurida no final do dia. Imaginem o cansaço que sente quando tira a máscara e pode ser ela mesma. Porque nenhum ser humano “normal” é assim tão encantador o tempo todo. Somos tomados por diversos tipos de sentimentos e é quase impossível acolher a todos os que nos cercam com o mesmo estado emocional.

Tudo o que é demais cheira à artificialidade. Coerência pode ser sinônimo de inconstância, também, por que não? E aqui não falo desses casos que mereceriam uma internação, quais sejam, os dessas pessoas que hoje nos juram amor eterno e amanhã nem nos cumprimentam.

Uma dose razoável de simpatia sempre é sedutora. Seja de anônimos vendedores ou de amigos íntimos. Tudo fica mais leve, mas há um limite que é de bom-tom não ultrapassar. Relações muito adocicadas podem causar uma espécie de diabetes na alma. Eu desconfio, e muito, de quem não costuma ficar com raiva ou não se irritar com nada. As lavas incandescentes devem estar prontas para explodir a qualquer momento. A que custo isso é mantido sob controle, só o fígado pode saber. Muitas vezes as palavras mel e fel têm a mesma significação. A grande arte é saber distingui-las.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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