ONDE É A FESTA?

por Gilmar Marcílio

Um dos temas mais recorrentes dentro do universo da psicologia é a incapacidade de avaliar corretamente o que há de bom em nossa vida. A festa sempre parece estar acontecendo na casa ao lado. Não importa o quão felizes ou serenos estejamos, precisamos espiar o que se passa com o vizinho, os amigos e as pessoas públicas que admiramos. E a constatação será invariavelmente a mesma: eu estaria bem melhor se tivesse um pouco mais de dinheiro, se minha namorada fosse loira, se eu pudesse passar um ano no Exterior. Mas a gente sabe, instintivamente, que conta bancária, cor de cabelo ou a quantidade de vezes que viajamos não têm nada a ver com estar bem consigo mesmo.

Poderíamos dar o nome de inveja a essa estranha doença que nos incapacita para avaliar corretamente o que deve ser considerado como um ganho extraordinário. Mas acho que a questão não é tão simples assim. Somos míopes para perceber o que se sagra no ordinário, como se com os outros tudo acontecesse de forma mais esplendorosa, menos banal. Não conseguimos colher as oferendas que se apresentam disfarçadas de algo comum e que são, no mais, a quase totalidade do que experimentamos cotidianamente. Mas há que se perceber aqui o valor maior daquilo que, sonolentamente, chamamos de rotina. Dentro de uma repetição que quase sempre nos causa tédio, é possível pinçar um sem número de situações que pertencem à ordem da mais pura alegria. A vivência plena do afeto é capaz de gerar um alto padrão de relacionamento. É possível, sim, admirar alguém depois de 30 anos de convivência. Basta deixar alguns espaços para expandir nossa percepção do mundo, introduzindo nesse universo doméstico a presença de outras pessoas. Porque, afinal, ninguém é tão interessante a ponto de suprir o outro em sua totalidade.

Quantas reservas devemos ter para nos sentir financeiramente seguros? Haverá um limite? Não creio, a se levar em conta a eterna insegurança que sentimos. O objetivo pode ser 500, mil, mas facilmente se transformará em milhões. Um rosto e um corpo bonitos nos protegem de dissabores e tristezas? Ajudam, com certeza, dizer que não seria ingenuidade ou despeito. Mas não é um valor em si. Pratique uma matemática simples e você terá a resposta. Passamos mais tempo seduzindo ou conversando com quem está a nosso lado? Sentimos fascínio pelo que não conseguimos ser ou ter, eis uma verdade consumada. Essa fratura na alma acontece toda vez que deixamos de ver que a falta não é necessariamente uma tragédia.

Ver melhor, essa tem sido a grande tarefa que me imponho todas as manhãs, assim que acordo. Para tanto, busco ajuda na arte, nas pessoas com quem convivo, esforçando-me para estar verdadeiramente presente em cada situação. Somado a isso, permanece em mim a esperança de que o tempo pode ser um grande aliado. Vou bebendo de todas as fontes, no desejo incessante de reconhecer a alteridade. Há a dor, o desconforto e a insatisfação. Mas há também, e sobretudo, a possibilidade de se reconstruir a partir do mesmo gesto, da mesma presença amorosa, do contentamento que se esconde nas dobras de cada dia.


Publicado com a permissão do autor.
Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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