MENOS MÚSCULOS, POR FAVOR

por Gilmar Marcílio

É o que sugere o filósofo e psiquiatra Daniel Lins. Em suas palavras, estamos todos contaminados pela ideia de que a vida tem que seguir o roteiro proposto pelas academias rigidez, muita rigidez. Só que, ao transformarmos nosso corpo numa massa muscular compacta, perdemos a noção da fragilidade que nos é inerente. Não se está fazendo aqui a apologia da preguiça, da troca dos halteres por um aconchegante sofá. É preciso sempre estar em prontidão para agir, se necessário; manter uma vigilância não apenas física, mas principalmente espiritual. O que se deve evitar é transformar cada um de nossos membros numa arma de guerra, pois esse enrijecimento forçado pode provocar uma fratura em nossa visão de mundo.

Certa flexibilidade é útil e desejável, mas a obsessão por esse desenvolvimento exagerado pode fazer com que esqueçamos que outros talentos precisam também ser cultivados. Respeito e até invejo quem consegue ter disciplina para a prática regular de exercícios. O que coloco em xeque não é a busca saudável da boa forma. Somos animais que buscam seduzir. Gostamos de acreditar que bíceps desenvolvidos e barrigas saradas podem garantir uma relação satisfatória. A beleza física, como um espetáculo a ser admirado, é quase sempre um cartão de visitas que abre muitas portas, é certo. Mas um dia tudo isso acaba, e o que teremos então para mostrar?

Sei que essa defesa está comprometida pela maneira como levo minha vida. Mais inclinado à reflexão, tendo a crer que a inteligência também pode nos tornar criaturas sedutoras, que a palavra tem um grande apelo erótico e que há inúmeras variáveis que contam, além de um corpo perfeito. Se ele vier no pacote, excelente. É quase como ganhar na loteria. Diversas vezes. Mas quantos são os afortunados? Especulações, enfim, que querem apenas dizer isso: cuidado para não acreditar que podemos encontrar a salvação num único posto de serviços. É necessário caminhar muito, atravessar vários desertos e cidades desconhecidas até chegar à paisagem com que sempre sonhamos (ou a algo próximo disso).

No sábio aforismo de Borges, aprendemos que é preciso construir sobre a areia como se pedra fosse. Sabendo que a pedra também pertence à ordem das coisas que perecem. Atente: menos músculos, mas não músculo nenhum. Tudo deve ter a conotação de jogo, não de obrigação. É bom lembrar de dirigir nossos olhos para outros campos, esses que nos mostram o tempo todo o quanto somos vulneráveis. E ter em mente, também, que o desenvolvimento por hipertrofia é contra a natureza. Um exagero que se justifica pela busca quase insana pelo aprimoramento estético, para que nos tornemos desejáveis ao olhar do outro, sempre o outro. Apenas isso.

Tomara que as academias se multipliquem cada vez mais. Guardarei a secreta esperança de que essa noção do belo, herdada dos gregos, possa ser o início de uma relação que inclua também o saber. Um saber que tem a consciência da finitude como vigia. Pois é assim que as coisas caminham – aos pares, num longo abraço que irmana o início e o fim de tudo.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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