DEPENDE...

por Gilmar Marcílio

Na Rússia, ter uma relação fora do casamento durante uma viagem não é considerado traição. No Japão, os homens de negócios pagam por sexo e não sentem culpa as esposas concordam. Na Indonésia, a poligamia é legal. Na França, por sua vez, o que mais se busca numa relação é a fidelidade. Nos Estados Unidos, o adultério é considerado tão grave que chega a interferir nas ações políticas. E por aí vai. Os exemplos acima se referem estritamente a questões de ordem sexual e afetiva, mas dão conta do infinito espectro de possibilidades que pode habitar a cabeça de uma pessoa. Dependendo do lugar, do interesse e da data em que isso ocorre, pode adquirir as mais diversas conotações. Alguém se aventuraria a dizer quem está certo? Alguns serão promíscuos e outros santos? Ou moralistas? Acho arriscado abordar essa questão de forma maniqueísta.

Podemos estender esse questionamento para todas as ações humanas. Somos movidos por interesses que já nascem mascarados pelos códigos sociais da época em que vivemos. Por isso a importância de conhecer culturas diferentes, de saber que nenhum fato pode ser analisado senão à luz do momento e do local em que acontece. Cada um de nós tem justificativas mais do que plausíveis para morrer por uma causa ou para promover um autoperdão secreto, quando praticamos alguma transgressão. Aliás, essa palavra encontra mais abrigo na tirania religiosa do que no âmbito penal. Não que eu creia que devêssemos escapar desses freios todos. Imaginem o que restaria da vida em sociedade se saíssemos por aí fazendo e falando o que bem quiséssemos. O que me desagrada é encontrar tantas criaturas que apregoam (será que vivenciam?) padrões comportamentais excessivamente rígidos.

O tempo se encarrega de desmanchar muitas ilusões, deixando um travo amargo na boca dos legisladores da vida. É certo que apenas o passar dos anos não nos torna necessariamente mais sábios – a realidade está aí para desmentir esse mito. Mas pelo menos temos à nossa disposição um arsenal maior de informações e experiências, o que pode nos levar a um relativismo saudável, a olhar o outro e compreendê-lo em suas estranhezas e diferenças. O suporte que a filosofia nos fornece, neste caso, é de valor inestimável. Dos gregos até os pensadores pós-modernos, fomos capazes de reinventar o mundo a partir das superstições, da ciência e dos princípios morais. Um trovão já não nos assusta mais, pois sabemos que não se trata da ira divina. Isso tudo sob a ótica de nossa cultura ocidental, claro. Nos países islâmicos, as mulheres ainda são apedrejadas até a morte diante da menor suspeita de infidelidade.

A construção de nossa identidade está presa a um sem número de signos que muitas vezes não nos interessa traduzir. Pigmeus diante de um gigante que preferimos ignorar – a História –, colamos nosso rosto neste estreito muro onde o tempo vai se descolorindo e que chamamos de vida, a vida de cada um. Aceitar ou recusar, agir ou omitir-se, é sempre uma questão estritamente pessoal. Não importa se estamos falando de sexo, política, dinheiro ou arte. Somos prisioneiros entorpecidos em frente a um mosaico de opções que nem sempre conseguimos suportar ou entender. Condenar, instintivamente, não é a maneira mais inteligente de lidar com o que nos incomoda.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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