Pra ser sincero

Leia, em primeira mão, um trecho do livro Pra ser sincero, de Humberto Gessinger, que será publicado em comemoração aos 25 anos de criação da banda Engenheiros do Hawaii.

“Voltando ao primeiro show, encontraremos minha guitarra Giannini Diamond fingindo ser uma Gibson 335. Eu, de bombacha e cabelo new wave, não sei o que fingia ser. O repertório era meio performático. Além das músicas que escrevi, tocamos uma versão reggae de Lady Laura, do Roberto Carlos, e jingles dos biscoitos Sem Parar e do Extrato de Tomate Elefante.
Não lembro bem do show, pois estava bêbado. Era a primeira vez que eu tocava em público. Tracei uma linha na lista das músicas que ficava aos meus pés, exatamente no que seria a metade do show. Enquanto tocava, olhava o roteiro e pensava que, se chegasse até aquela linha vivo, iria até o fim.”

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SIMPATIA

por Gilmar Marcílio

Ao entrar na farmácia, a atendente me carrega no colo com seu sorriso. Tudo nela é mesura e delicadeza. Seu objetivo na vida parece se resumir a isso: o que fazer para atender às minhas expectativas. Seria imperdoável se eu saísse de lá insatisfeito ou, muito mais grave, sem algum dos produtos que precisava adquirir. E eu morrendo de pressa. E lá fora chuva e um frio siberiano. Quanto mais objetivo eu tentava ser, mais ela se esforçava para me mostrar praticamente tudo o que estava exposto nas prateleiras. Sempre encontrava um substituto muito melhor do que aquele que eu estava procurando. Não temos isso, mas se você experimentar essa nova marca, vai descobrir praticamente o segredo de como ser feliz. Meu Deus, pensei, como é que alguém consegue ser tão gentil? E em tempo integral. É um caso que merece admiração ou tratamento?

Eu falo com conhecimento de causa. Passo o dia me mortificando se fico com a vaga sensação de ter sido indelicado com alguém. Desdobro-me em obrigados, desculpas e por favor. Mas tenho tentado encontrar um ponto de equilíbrio para essas manifestações exageradas de civilidade que me acometem 24 horas por dia. Receio me tornar um simpático chato. É claro que a falta de educação é muito mais nociva e nem de longe eu sonho em ser apontado como aquele que nunca agradece e que não sabe reconhecer o que lhe fazem de bom. Mas acho que os dois excessos são prejudiciais para a nossa saúde psíquica. A prova disso é que depois que eu consegui me desvencilhar da muito prestativa vendedora de medicamentos fiquei rindo à toa, mas na hora tive vontade de conhecer mais de perto a sua jugular, confesso.

Pedir para que as pessoas sejam menos afáveis, quando tudo nos leva a crer que estamos nos tornando insensíveis ao outro, é um ato arriscado. Mas, convenhamos, como cansa ter que ficar com um sorriso congelado no rosto só para corresponder à expectativa alheia! Passei alguns dias me lembrando do esforço que a moça fez nos quinze minutos em que estivemos juntos. O resultado foi que eu quase desisti das minhas compras, mesmo que isso significasse caminhar mais duas ou três quadras naquela noite invernosa. Só para fugir dela. E fiquei pensando que a pobre criatura deve ficar totalmente exaurida no final do dia. Imaginem o cansaço que sente quando tira a máscara e pode ser ela mesma. Porque nenhum ser humano “normal” é assim tão encantador o tempo todo. Somos tomados por diversos tipos de sentimentos e é quase impossível acolher a todos os que nos cercam com o mesmo estado emocional.

Tudo o que é demais cheira à artificialidade. Coerência pode ser sinônimo de inconstância, também, por que não? E aqui não falo desses casos que mereceriam uma internação, quais sejam, os dessas pessoas que hoje nos juram amor eterno e amanhã nem nos cumprimentam.

Uma dose razoável de simpatia sempre é sedutora. Seja de anônimos vendedores ou de amigos íntimos. Tudo fica mais leve, mas há um limite que é de bom-tom não ultrapassar. Relações muito adocicadas podem causar uma espécie de diabetes na alma. Eu desconfio, e muito, de quem não costuma ficar com raiva ou não se irritar com nada. As lavas incandescentes devem estar prontas para explodir a qualquer momento. A que custo isso é mantido sob controle, só o fígado pode saber. Muitas vezes as palavras mel e fel têm a mesma significação. A grande arte é saber distingui-las.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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DEPENDE...

por Gilmar Marcílio

Na Rússia, ter uma relação fora do casamento durante uma viagem não é considerado traição. No Japão, os homens de negócios pagam por sexo e não sentem culpa as esposas concordam. Na Indonésia, a poligamia é legal. Na França, por sua vez, o que mais se busca numa relação é a fidelidade. Nos Estados Unidos, o adultério é considerado tão grave que chega a interferir nas ações políticas. E por aí vai. Os exemplos acima se referem estritamente a questões de ordem sexual e afetiva, mas dão conta do infinito espectro de possibilidades que pode habitar a cabeça de uma pessoa. Dependendo do lugar, do interesse e da data em que isso ocorre, pode adquirir as mais diversas conotações. Alguém se aventuraria a dizer quem está certo? Alguns serão promíscuos e outros santos? Ou moralistas? Acho arriscado abordar essa questão de forma maniqueísta.

Podemos estender esse questionamento para todas as ações humanas. Somos movidos por interesses que já nascem mascarados pelos códigos sociais da época em que vivemos. Por isso a importância de conhecer culturas diferentes, de saber que nenhum fato pode ser analisado senão à luz do momento e do local em que acontece. Cada um de nós tem justificativas mais do que plausíveis para morrer por uma causa ou para promover um autoperdão secreto, quando praticamos alguma transgressão. Aliás, essa palavra encontra mais abrigo na tirania religiosa do que no âmbito penal. Não que eu creia que devêssemos escapar desses freios todos. Imaginem o que restaria da vida em sociedade se saíssemos por aí fazendo e falando o que bem quiséssemos. O que me desagrada é encontrar tantas criaturas que apregoam (será que vivenciam?) padrões comportamentais excessivamente rígidos.

O tempo se encarrega de desmanchar muitas ilusões, deixando um travo amargo na boca dos legisladores da vida. É certo que apenas o passar dos anos não nos torna necessariamente mais sábios – a realidade está aí para desmentir esse mito. Mas pelo menos temos à nossa disposição um arsenal maior de informações e experiências, o que pode nos levar a um relativismo saudável, a olhar o outro e compreendê-lo em suas estranhezas e diferenças. O suporte que a filosofia nos fornece, neste caso, é de valor inestimável. Dos gregos até os pensadores pós-modernos, fomos capazes de reinventar o mundo a partir das superstições, da ciência e dos princípios morais. Um trovão já não nos assusta mais, pois sabemos que não se trata da ira divina. Isso tudo sob a ótica de nossa cultura ocidental, claro. Nos países islâmicos, as mulheres ainda são apedrejadas até a morte diante da menor suspeita de infidelidade.

A construção de nossa identidade está presa a um sem número de signos que muitas vezes não nos interessa traduzir. Pigmeus diante de um gigante que preferimos ignorar – a História –, colamos nosso rosto neste estreito muro onde o tempo vai se descolorindo e que chamamos de vida, a vida de cada um. Aceitar ou recusar, agir ou omitir-se, é sempre uma questão estritamente pessoal. Não importa se estamos falando de sexo, política, dinheiro ou arte. Somos prisioneiros entorpecidos em frente a um mosaico de opções que nem sempre conseguimos suportar ou entender. Condenar, instintivamente, não é a maneira mais inteligente de lidar com o que nos incomoda.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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MENOS MÚSCULOS, POR FAVOR

por Gilmar Marcílio

É o que sugere o filósofo e psiquiatra Daniel Lins. Em suas palavras, estamos todos contaminados pela ideia de que a vida tem que seguir o roteiro proposto pelas academias rigidez, muita rigidez. Só que, ao transformarmos nosso corpo numa massa muscular compacta, perdemos a noção da fragilidade que nos é inerente. Não se está fazendo aqui a apologia da preguiça, da troca dos halteres por um aconchegante sofá. É preciso sempre estar em prontidão para agir, se necessário; manter uma vigilância não apenas física, mas principalmente espiritual. O que se deve evitar é transformar cada um de nossos membros numa arma de guerra, pois esse enrijecimento forçado pode provocar uma fratura em nossa visão de mundo.

Certa flexibilidade é útil e desejável, mas a obsessão por esse desenvolvimento exagerado pode fazer com que esqueçamos que outros talentos precisam também ser cultivados. Respeito e até invejo quem consegue ter disciplina para a prática regular de exercícios. O que coloco em xeque não é a busca saudável da boa forma. Somos animais que buscam seduzir. Gostamos de acreditar que bíceps desenvolvidos e barrigas saradas podem garantir uma relação satisfatória. A beleza física, como um espetáculo a ser admirado, é quase sempre um cartão de visitas que abre muitas portas, é certo. Mas um dia tudo isso acaba, e o que teremos então para mostrar?

Sei que essa defesa está comprometida pela maneira como levo minha vida. Mais inclinado à reflexão, tendo a crer que a inteligência também pode nos tornar criaturas sedutoras, que a palavra tem um grande apelo erótico e que há inúmeras variáveis que contam, além de um corpo perfeito. Se ele vier no pacote, excelente. É quase como ganhar na loteria. Diversas vezes. Mas quantos são os afortunados? Especulações, enfim, que querem apenas dizer isso: cuidado para não acreditar que podemos encontrar a salvação num único posto de serviços. É necessário caminhar muito, atravessar vários desertos e cidades desconhecidas até chegar à paisagem com que sempre sonhamos (ou a algo próximo disso).

No sábio aforismo de Borges, aprendemos que é preciso construir sobre a areia como se pedra fosse. Sabendo que a pedra também pertence à ordem das coisas que perecem. Atente: menos músculos, mas não músculo nenhum. Tudo deve ter a conotação de jogo, não de obrigação. É bom lembrar de dirigir nossos olhos para outros campos, esses que nos mostram o tempo todo o quanto somos vulneráveis. E ter em mente, também, que o desenvolvimento por hipertrofia é contra a natureza. Um exagero que se justifica pela busca quase insana pelo aprimoramento estético, para que nos tornemos desejáveis ao olhar do outro, sempre o outro. Apenas isso.

Tomara que as academias se multipliquem cada vez mais. Guardarei a secreta esperança de que essa noção do belo, herdada dos gregos, possa ser o início de uma relação que inclua também o saber. Um saber que tem a consciência da finitude como vigia. Pois é assim que as coisas caminham – aos pares, num longo abraço que irmana o início e o fim de tudo.


Publicado com a permissão do autor. Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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Começa a Bienal de Literatura no Rio


Começa hoje a Bienal de Literatura no Rio de Janeiro, a mais importante do mercado editorial brasileiro. O evento estará aberto ao público a partir do meio-dia e segue até o próximo dia 20 de setembro. Além da participação de grandes autores nacionais e internacionais, a Bienal preparou novidades para os visitantes, sendo uma delas a Floresta de Livros, um espaço lúdico-narrativo, onde os visitantes terão contato direto com livros e com as histórias que eles espalham por todo o mundo há séculos. Nessa floresta, as obras “saltam” das prateleiras para as mãos, olhos e ouvidos do público, que poderá interagir com elas de diversas formas. Este ano, a Bienal conta com um novo patrocinador: o Submarino. Os livros da Belas-Letras também estarão à venda em vários estandes durante a Bienal.

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ONDE É A FESTA?

por Gilmar Marcílio

Um dos temas mais recorrentes dentro do universo da psicologia é a incapacidade de avaliar corretamente o que há de bom em nossa vida. A festa sempre parece estar acontecendo na casa ao lado. Não importa o quão felizes ou serenos estejamos, precisamos espiar o que se passa com o vizinho, os amigos e as pessoas públicas que admiramos. E a constatação será invariavelmente a mesma: eu estaria bem melhor se tivesse um pouco mais de dinheiro, se minha namorada fosse loira, se eu pudesse passar um ano no Exterior. Mas a gente sabe, instintivamente, que conta bancária, cor de cabelo ou a quantidade de vezes que viajamos não têm nada a ver com estar bem consigo mesmo.

Poderíamos dar o nome de inveja a essa estranha doença que nos incapacita para avaliar corretamente o que deve ser considerado como um ganho extraordinário. Mas acho que a questão não é tão simples assim. Somos míopes para perceber o que se sagra no ordinário, como se com os outros tudo acontecesse de forma mais esplendorosa, menos banal. Não conseguimos colher as oferendas que se apresentam disfarçadas de algo comum e que são, no mais, a quase totalidade do que experimentamos cotidianamente. Mas há que se perceber aqui o valor maior daquilo que, sonolentamente, chamamos de rotina. Dentro de uma repetição que quase sempre nos causa tédio, é possível pinçar um sem número de situações que pertencem à ordem da mais pura alegria. A vivência plena do afeto é capaz de gerar um alto padrão de relacionamento. É possível, sim, admirar alguém depois de 30 anos de convivência. Basta deixar alguns espaços para expandir nossa percepção do mundo, introduzindo nesse universo doméstico a presença de outras pessoas. Porque, afinal, ninguém é tão interessante a ponto de suprir o outro em sua totalidade.

Quantas reservas devemos ter para nos sentir financeiramente seguros? Haverá um limite? Não creio, a se levar em conta a eterna insegurança que sentimos. O objetivo pode ser 500, mil, mas facilmente se transformará em milhões. Um rosto e um corpo bonitos nos protegem de dissabores e tristezas? Ajudam, com certeza, dizer que não seria ingenuidade ou despeito. Mas não é um valor em si. Pratique uma matemática simples e você terá a resposta. Passamos mais tempo seduzindo ou conversando com quem está a nosso lado? Sentimos fascínio pelo que não conseguimos ser ou ter, eis uma verdade consumada. Essa fratura na alma acontece toda vez que deixamos de ver que a falta não é necessariamente uma tragédia.

Ver melhor, essa tem sido a grande tarefa que me imponho todas as manhãs, assim que acordo. Para tanto, busco ajuda na arte, nas pessoas com quem convivo, esforçando-me para estar verdadeiramente presente em cada situação. Somado a isso, permanece em mim a esperança de que o tempo pode ser um grande aliado. Vou bebendo de todas as fontes, no desejo incessante de reconhecer a alteridade. Há a dor, o desconforto e a insatisfação. Mas há também, e sobretudo, a possibilidade de se reconstruir a partir do mesmo gesto, da mesma presença amorosa, do contentamento que se esconde nas dobras de cada dia.


Publicado com a permissão do autor.
Gilmar Marcílio é escritor, filósofo e coordenador da Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim. Publica suas crônicas em jornais desde 1998.

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OPERAR NA BOLSA É DIFÍCIL?

por Márcia Tolotti

Dizem que o primeiro passo é o mais difícil, será verdade? Sim, porque a verdade é sempre parcial e não-toda, então para alguns, o primeiro passo é muito difícil. Operar na bolsa, fazer investimentos ou mesmo o fato de iniciar uma simples poupança, pode ser um grande desafio ou mesmo representar uma imensa paralisação.
Temos dois aspectos para enfrentar: um objetivo e um subjetivo. O objetivo é mais fácil, é o conhecimento e com empenho e persistência resolvemos. Mas, o outro é mais complexo, porque é aquilo que impede de fazermos o que decidimos. Tomamos uma decisão, estamos certos de que é o melhor a fazer, mas por alguma razão não seguimos com nosso propósito.
Nos sabotamos, quando não fazemos o que havíamos combinado conosco por diversos motivos e um dos principais é pela dificuldade de rompermos um ciclo cultural e pessoal relacionado aos ganhos. Entre outras razões, operar na bolsa é difícil porque se representa o risco de perder, também representa o risco de ganhar…



Publicado com permissão do autor.
Márcia Tolotti é psicanalista, psicóloga e MBA em Marketing. Conheça mais em www.moddo.com.br

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